PARE DE BUSCAR APROVAÇÃO: A Filosofia de Schopenhauer
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- há 2 dias
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Era uma vez, em um reino distante, um soberano profundamente preocupado com a imagem que projetava. Escolheu sua esposa não por afinidade, mas pela elegância que ela trazia ao seu lado. Governava seu povo não pelo bem comum, mas por decisões que lhe rendessem aplausos, especialmente de seus seguidores mais leais. Quando os elogios chegavam, os tomava como validação de que estava no caminho certo.
Essa busca pela aprovação alheia é mais comum do que imaginamos. Enquanto alguns dedicam a vida inteira ao reconhecimento externo, a maioria de nós permite que a opinião dos outros molde escolhas fundamentais. Para o filósofo Arthur Schopenhauer, esse é um hábito profundamente nocivo. Ele próprio vivia à margem das convenções sociais: nunca se casou, não teve filhos e evitava a companhia da multidão. Dessa posição privilegiada de observador solitário, desenvolveu uma perspectiva única sobre o comportamento humano, percebendo como as pessoas, em sua busca pela felicidade, frequentemente perseguem os objetivos errados.

Sua conclusão foi que essa obsessão pela opinião alheia tem um custo elevado. Schopenhauer dedicou um ensaio inteiro para desmontar essa necessidade de validação. Exploraremos suas ideias para compreender por que, segundo ele, preocupar-se com o julgamento dos outros pode arruinar nossa existência, e como seus ensinamentos se aplicam à nossa realidade cotidiana.
A Obsessão Humana pela Aprovação
Arthur Schopenhauer passou seus últimos anos em Frankfurt, num pequeno apartamento com seu poodle Atman, seu fiel companheiro de caminhadas e a presença que preferia à companhia humana. Essa preferência não surpreende: muitos acham a convivência com animais mais agradável, pois eles não julgam como as pessoas – algo que certamente ressoava com Schopenhauer.
Apesar de sua visão pessimista, Schopenhauer se dedicou à reflexão sobre a felicidade humana em seu ensaio "Aforismos para a Sabedoria de Vida". Nesta obra, ele parte da classificação de Aristóteles sobre os bens da vida em três categorias: primeiro, o que o indivíduo é – sua saúde, força, temperamento, caráter, inteligência e formação. Segundo, o que o indivíduo tem – suas posses e propriedades. Terceiro, a reputação – como a pessoa é vista pelos outros, a imagem que projetam dela.
Para Schopenhauer, essas categorias não têm o mesmo peso. A primeira é incomparavelmente mais importante para a felicidade genuína. Nossa saúde, nossa forma de pensar e sentir, nossos valores e conhecimento – não são esses os alicerces do contentamento? Não é nossa atitude diante das circunstâncias, mais do que as próprias circunstâncias, que molda nossa alegria interior?
A segunda categoria, bens materiais, só importa na medida em que supre necessidades básicas; além disso, contribui pouco para a felicidade. O contentamento que proporcionam depende do nosso olhar sobre eles e do quanto precisamos para nos sentir satisfeitos. Um humilde pode ser pleno com o que tem, enquanto um abastado pode ser infeliz apesar de sua fortuna.
A fonte mais inferior de felicidade, segundo Schopenhauer, é a reputação. Reputação, honra, status e fama – qual seu propósito senão alimentar o desejo por elogios e reconhecimento? Como contribuem realmente para a felicidade? Ainda assim, muitos se preocupam excessivamente com a imagem que projetam. Schopenhauer observou que a maioria valoriza mais a opinião alheia do que o que se passa em sua própria consciência – aquilo que lhe é mais imediato e presente.
Essas pessoas, percebeu com precisão, "invertem a ordem natural". Consideram a opinião dos outros como "existência real" e sua própria consciência – o que verdadeiramente importa para a felicidade – como algo secundário, quase ilusório. A imagem que apresentam ao mundo torna-se mais importante que sua própria essência.
Não precisamos ir longe para ver essa busca por aprovação em ação. Crianças buscam elogios dos pais, estudantes dos professores, funcionários de colegas e chefes. Observamos pessoas constantemente se apresentando como mais bem-sucedidas, ricas e atraentes do que realmente são. Basta ver as ostentações em redes profissionais, a autopromoção nas mídias sociais e as apresentações pessoais em eventos sociais.
O investimento em roupas de marca, tatuagens, carros e casas – muitas vezes para projetar uma imagem específica, enquanto outros fazem exatamente o mesmo – demonstra o quanto valorizamos a percepção alheia.
Sejamos honestos: elogios geralmente são agradáveis. Quem não aprecia uma opinião favorável do seu círculo, mesmo quando imerecida? Isso nos traz a sensação de sermos vistos e reconhecidos. Sentimo-nos aceitos, valorizados, com a existência validada. Como Schopenhauer disse, uma expressão de deleite surge no rosto, e mesmo um elogio claramente falso é bem-vindo quando toca num ponto de orgulho pessoal.
A Traição a Si Mesmo
Alguns são mais sensíveis ao elogio que outros. O soberano da nossa história é quase patologicamente preocupado com a imagem, a ponto de sua existência inteira girar em torno disso.
Quando seu objetivo principal é ser aprovado, você precisa ajustar suas ações às preferências alheias. Se tiver sucesso, as pessoas passam a admirá-lo; algumas o tomam como exemplo. Perguntam como alcançou seu êxito, e influenciadores o convidam para compartilhar sua trajetória.
Mas dominar a arte de projetar uma imagem elevada aos olhos alheios significa, necessariamente, que você é uma pessoa feliz, autêntica e realizada?
Para Schopenhauer, você subordinou as duas primeiras categorias – "o que você é" e "o que você tem" – à terceira; elas se tornaram meros meios para um fim. Você essencialmente se sacrificou pela validação externa. Schopenhauer chama essa atitude de "consideração servil pelo que os outros dirão". Sua vida torna-se uma performance.
Não se trata mais de quem você realmente é, do que verdadeiramente defende, seus valores, interesses, paixões e visão autêntica da vida. Trata-se de apresentar-se ao mundo de maneiras que garantam validação e aprovação, à custa da sua essência. Você se torna aquilo que os outros consideram desejável.
Veste-se de certo modo não por preferência pessoal, mas pelo status que confere aos olhos alheios. Acompanha determinada série não por apreciá-la, mas para ser aceito por quem a adora. Frequenta cultos não por espiritualidade genuína, mas para ser visto e bem considerado.
Essa preocupação com a reputação também afeta sua relação com posses. Se a opinião alheia não importasse, bens serviriam apenas para sobrevivência e conforto pessoal. Quando a reputação entra em jogo, você pode comprar uma casa além de suas possibilidades não por necessidade, mas para elevar seu status. Dirige um carro caro não por necessidade ou prazer, mas para ser visto nele.
Esses objetos de status têm seu preço. Muitos trabalham horas extras para obtê-los; alguns até se endividam.
Colocar a opinião alheia acima da própria felicidade pode até influenciar a escolha de parceiros. Em vez de escolher com base em preferências pessoais, você escolhe baseado em como os outros o perceberão ao lado dessa pessoa. Não escolhe mais um ser humano; escolhe uma imagem. Chamar alguém de "troféu" a reduz a símbolo de status, sugerindo que sua função principal é elevar a posição do parceiro – como no caso do soberano da nossa história.
Quando calibramos quem somos e o que possuímos para obter validação externa, desperdiçamos recursos, perdemos tempo, sacrificamos nossa paz interior e, talvez pior, traímos a nós mesmos. Transformamo-nos em palhaços que saltam através de arcos e se incendeiam para agradar à plateia. E, se isso servir ao nosso propósito, incendiamos outros também.
Schopenhauer não estaria certo ao chamar essa tendência humana de "fraqueza peculiar"? E, pensando bem: esse elogio, essa validação, essas opiniões favoráveis sobre nós... valem realmente todo esse esforço? Para Schopenhauer, na maioria dos casos, são uma perda de tempo.
A Supervalorização das Opiniões
Muitos adoram ser elogiados. Mas quem exatamente está oferecendo esses elogios? Quem são essas pessoas cuja aprovação buscamos? E por que deveríamos nos importar com o que pensam?
Certas opiniões têm valor. As de especialistas – que dedicaram suas vidas ao estudo de determinado assunto – podem ser extremamente úteis. Talvez as opiniões daqueles que amamos também mereçam consideração, nem que seja para compreender sua posição sobre temas importantes.
Mas e as demais? E a infinidade de opiniões que encontramos por toda parte, online e offline?
Opiniões humanas certamente não faltam. As pessoas as expressam constantemente, onde quer que estejam. Começa com comentários sobre a nova marca de pasta de amanhã, passa pelo vestido feio da vizinha, pelo novo funcionário com bigode estranho, pelas notícias, pelas notícias de ontem, pelo clima, e assim por diante.
Online, nas seções de comentários de redes sociais, encontramos milhões compartilhando suas opiniões como se fossem as peças intelectuais mais profundas já produzidas pela humanidade, apresentando-as como fatos absolutos enquanto rejeitam a opinião de verdadeiros especialistas. E fazem isso com orgulho, defendendo-as como defenderiam seus próprios filhos.
Schopenhauer não poupou críticas às opiniões alheias, chamando-as de falsas, errôneas, perversas e absurdas – o que, claro, é sua opinião. Mas fundamentava seu ponto dizendo que os pensamentos da maioria são superficiais e fúteis, suas ideias estreitas, seus sentimentos mesquinhos, tornando suas opiniões distorcidas e repletas de erro.
Não há verdade nessa observação? A maioria das pessoas que expressam opiniões sem filtro sabe pouco do que está falando, e frequentemente o faz por impulso e desejo de "destruir" oponentes, em vez de buscar diálogo construtivo.
Schopenhauer também argumentava que o homem fala depreciativamente de seu semelhante sempre que não precisa temê-lo ou quando ele não está ouvindo. Esse comportamento é comum online; vemos exércitos de trolls anônimos, sem nada a temer, dizendo as coisas mais repugnantes. Quando palavras não têm consequências, as pessoas mostram quem realmente são.
Schopenhauer escreveu ainda que os maiores homens enfrentam repulsa de "meia dúzia de imbecis", lembrando como a maioria é pouco qualificada para julgar. Vemos isso hoje: os canalhas mais corruptos e limitados recebem admiração, enquanto os bondosos, sábios e inteligentes são desdenhados e tidos como fracos.
O que Schopenhauer percebeu, enquanto passeava com seu poodle e ouvia conversas pelas ruas, é que as opiniões que tanto valorizamos e que as pessoas espalham por toda parte... são, na maioria das vezes, questionáveis. Baseiam-se em devaneios e são mais produtos de sentimentos e preferências pessoais do que fundamentadas em fatos.
Quem deseja se desdobrar para agradar a pessoas que nem sabem do que estão falando? Como disse o provérbio: "Opiniões são como traseiros. Todo mundo tem um, e a maioria está cheia de merda."
Como, então, nos importarmos menos com elas?
O Desapego das Opiniões
Schopenhauer é categórico: não devemos nos importar excessivamente com a opinião alheia. Valorizar demasiadamente o que outros pensam é um erro comum, talvez enraizado na própria natureza humana ou resultado da civilização e das estruturas sociais. Qualquer que seja sua origem, exerce influência desmedida sobre nossas ações e prejudica gravemente nossa felicidade.
Importar-se menos com opiniões começa com a conscientização. Schopenhauer nos convida a enxergá-las pelo que são: pouco confiáveis. Não merecem nossa atenção, e por isso é melhor ignorá-las, ainda que isso seja difícil.
Opiniões podem ser agradáveis ou dolorosas. Buscamos validação e tentamos evitar críticas. Mas reconhecer que ambas são frequentemente infundadas pode nos ajudar a moderar nossa sensibilidade a elas. Caso contrário, tornamo-nos servos do que dizem e pensam. Como Schopenhauer coloca, o único modo de pôr fim a essa loucura universal é reconhecer claramente que se trata de uma loucura.
Enxergar a insensatez de buscar validação externa também significa reconhecer que orgulho, honra, posição e fama têm pouco valor intrínseco. Não são necessários para a felicidade. O que os outros pensam pode parecer supremamente importante para alguns, mas, segundo Schopenhauer, mal toca o que verdadeiramente importa.
Em certas profissões ou situações, uma boa reputação pode ser conveniente ou até necessária, mas a felicidade não depende dela. Além disso, aplausos não colocam comida na mesa. Elogios não compram nada. Tapinhas nas costas não pagam o aluguel. Validação externa raramente agrega valor real às nossas vidas, por mais que pareça àqueles que a buscam intensamente.
A felicidade não se encontra nos olhos alheios; reside dentro de nós. Schopenhauer nos exorta a focar na primeira das bênçãos de Aristóteles: quem somos, como pensamos e sentimos, e como vivemos.
Isso significa escolher parceiros por desejo genuíno, não por melhorarem nossa imagem. Buscar o que nos apaixona, não o que outros consideram interessante ou prestigioso. Adquirir o que realmente queremos ou precisamos, não para ostentar. E encontrar um significado na vida que seja verdadeiramente nosso, não baseado nas expectativas alheias.
Escolhemos por nós mesmos, não para a plateia.





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