Como manter a serenidade em um mundo cercado de fórmulas vazias
- Método & Valor

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Talvez você deva admitir, em algum momento de quietude ou de profunda crise existencial, que passou tempo demais da sua vida decorando os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas, decorando a função exata de cada organela citoplasmática dentro de uma célula, ou repetindo com orgulho que o seno quadrado de um ângulo mais o cosseno quadrado desse mesmo ângulo é igual a um. Diante da pergunta definitiva, aquela que verdadeiramente tira o sono e ecoa no peito, sobre o que de fato precisa acontecer na sua trajetória para que você seja feliz, toda essa enxurrada de informações escolares parece secundária, senão meio ridícula. A verdade é que a reflexão sobre a chamada vida boa, aquela que realmente merece ser vivida, atravessa os séculos do pensamento humano. Desde que o homem começou a registrar suas angústias na história, ele busca aquilo que podemos considerar o filé mignon da vida: o que de mais importante deve acontecer para que nossa existência seja bem-sucedida?

Lá na mitologia antiga, Homero já nos dava pistas disso ao escrever a Odisseia, narrando a monumental aventura de Ulisses. Ulisses era rei em Ítaca, vivia em paz com sua esposa Penélope, plenamente estabelecido no seu lugar de direito. Mas o destino é implacável: o príncipe de Troia seduziu Helena, a maravilhosa esposa de Menelau, rei de Esparta. Atravessado pelo ciúme, Menelau declara guerra e constrange todos os reis gregos, incluindo Ulisses, a marcharem contra Troia. Ulisses não queria aquela guerra, mas foi obrigado a ir, passando longos dez anos distante de casa, testemunhando a ruína e a morte. Foi dele a ideia do famoso cavalo de Troia que deu a vitória aos gregos. Contudo, a soberba de um herói cobra seu preço; ao cegar o ciclope Polifemo, que possuía apenas um olho, Ulisses atraiu a ira furiosa de Poseidon, o deus dos mares. Por causa dessa vingança divina, ele levou outros dez anos para conseguir retornar ao lar.
Desses dez anos de deriva, sete longos anos foram passados na ilha de Calipso. Calipso era uma deusa maravilhosa, fascinante, e sua ilha funcionava como um resort paradisíaco de cinco estrelas, com ninfas limpando, assando lagostas e preparando churrasco. Qualquer um de nós veria ali o ápice da felicidade egoísta. Mas a mitologia registra que, todas as noites, Ulisses ia para a areia molhada da praia chorar, com os olhos fixos no horizonte, porque queria voltar para Penélope, para Ítaca, para o seu lugar no mundo. Percebendo que perderia o seu amado por ordem de Zeus, Calipso tenta uma cartada final e desesperada: ela lhe oferece a eternidade e a juventude perpétua. Oferecer a eternidade com velhice progressiva seria um castigo medonho, transformando o homem em uma uva passa enrugada e imprópria para o consumo; mas ela prometia vigor eterno, virilidade e a própria condição divina. E a resposta que Ulisses dá a ela constitui a primeira grande lição da filosofia ocidental sobre a vida boa: é preferível uma vida de mortal, uma vida humana vivida no seu lugar correto, do que uma vida de deus vivida no lugar errado. Ele agradece e vai embora, porque se você não estiver no seu lugar certo, nem Calipso resolverá o seu problema.
É exatamente nessa fronteira existencial que a filosofia de Aristóteles ganha corpo, trezentos e vinte anos antes de Cristo. Aristóteles nos ensina que o filé mignon da vida, aquilo que devemos buscar do nascimento à cova, é a excelência de si mesmo. A excelência nada mais é do que o pleno desabrochar da nossa própria natureza, ir o mais longe possível com as especificidades, talentos e dons que recebemos ao nascer. O pequeno desenhista buscará a excelência no traço, o cantor na voz, Neymar jogando futebol e César Cielo nadando. A felicidade, que os gregos denominavam eudaimonia, é o sentimento que nos atravessa quando devolvemos para o mundo, em forma de performance brilhante, competência e expertise, o investimento que o mundo nos deu sob a forma de potencialidade e talento. Viver bem é desabrochar como uma muda de árvore que vira uma grande goiabeira.
Mas a tragédia humana reside no fato de que podemos passar a vida inteira sem saber qual é a nossa praia, sem descobrir onde nosso solo é fértil. Sem lápis e papel não descobrimos o desenhista; sem instrumentos não descobrimos o músico. Se você não sabe qual é o seu lugar, acaba se encostando onde deixam, vivendo de qualquer jeito, e a vida tende a ser medíocre, sem graça e encruada. Foi assim com Clóvis até os seus treze anos, arrastando-se pela escola, odiando cada segundo da aula, obrigado pelo pai a fazer trabalhos manuais ridículos, como cinzeiros de argila horríveis ou origamis, aquela atividade do demônio em japonês onde uma dobra errada arruína o passarinho. A professora logo chamou seu pai para dizer que ele era como Ulisses na ilha de Calipso: estava totalmente fora de lugar.
Mas tudo mudou em mil novecentos e setenta e oito, num colégio de jesuítas em São Paulo, quando um professor de geografia propôs que os alunos dessem seminários. Sorteado com o tema sem graça do petróleo, ele estudou e, ao subir no palquinho da classe, pela primeira vez na vida, sentiu-se Ulisses em Ítaca. Sentiu que aquele lugar era adequado para ele, assim como a várzea é adequada para o arroz e o deserto para o cacto. Dali ele não queria sair nunca. Ao esquecer o roteiro, lembrou do seu pai, que sempre dizia frases simples que equivalem à filosofia mais sofisticada de Nietzsche. Enquanto Nietzsche dizia em Assim Falava Zaratustra para demorarmos o tempo que for para perceber o que queremos da vida e nunca recuarmos, seu pai dizia simplesmente para não termos pressa na hora de viver e que para trás não se deve ir nem para pegar impulso. E quando o filósofo alertava sobre as pessoas que tentariam nos dissuadir, seu pai arrematava com carinho que o mundo está cheio de gente querendo nos sacanear. Ao se empoderar dessa verdade, ele improvisou, ensinou sobre a Sildávia, aquela região das aventuras de Tintim que nem existe, e fez o professor e os colegas anotarem vidrados. Ao sair dali eufórico para encontrar o Fusca branco de seu pai, Aristóteles comemorava no banco de trás. Ele tinha encontrado Ítaca: a sala de aula. É ali que a excelência deve ser buscada, pois a felicidade é ir o mais longe possível, devolvendo ao mundo em forma de performance aquilo que ele nos deu em potencialidade.
Desde que o homem começou a pensar sobre a própria existência, ele se deu conta de que sua vida carrega uma espécie de problema original, uma perturbação que não atinge nenhuma outra criatura no planeta. Quando comparamos a trajetória humana com a vida de qualquer outro elemento da natureza, a diferença salta aos olhos de maneira quase escandalosa. Na natureza, tudo é necessariamente como só poderia ser. O vento venta da única forma que pode ventar, a maré mareia sob o comando inevitável da lua, o sapo sapia, a girafa girafaia, e o gato nasce sabendo viver perfeitamente como gato. O felino não precisa de manual de instruções, não passa por crises de identidade no meio da madrugada, nem se pergunta se deveria ter feito engenharia ou filosofia. Ele nasce programado. Ele segue o seu trilho biológico sem desvios, sem hesitações e, por isso mesmo, sem angústias.
Se você colocar um gato faminto ao lado de um prato repleto de alpiste, ele morrerá de fome. Ele não tem a capacidade física, metabólica e, acima de tudo, deliberativa de decidir comer aquilo. O pombo, da mesma forma, nasce pombo e morrerá pombo; ele nunca comerá um filé mignon, mesmo que esteja à beira da morte em um restaurante de luxo, porque sua programação natural o impede de transcender seus próprios limites. Mas o homem não. O homem é o bicho da transgressão. O homem olha para o prato de alpiste do passarinho, come, chama de linhaça e ainda sai por aí dizendo que faz um bem danado para a saúde. O homem come o filé mignon assado, cozido, frito ou cru se a situação exigir. Nós transcendemos. Nós fomos largados neste mundo com uma natureza inacabada, sem um roteiro biológico estrito que nos diga exatamente o que fazer quando acordamos.
Essa soberana e assustadora condição de termos que inventar, criar, improvisar e deliberar a cada passo de nossa trajetória é o que na filosofia chamamos de transcendência. A vida humana não está pronta; ela precisa ser feita por nós mesmos no calor do instante. E cada passo que damos em uma direção é, necessariamente, a morte de dezenas de outras trajetórias possíveis. Viver pressupõe escolher, e escolher é a arte de renunciar. Quando decidimos trilhar um caminho, jogamos no lixo da história infinitas outras vidas que poderíamos ter vivido. Uma pera pendurada na pereira não sofre com isso. Seria uma esquizofrenia total se a pera pensasse se deve cair hoje ou se deve esperar amanhã porque vai chover e ela não quer se sujar na terra, ou se a própria pereira começasse a aconselhá-la sobre o melhor momento do desembarque. A pera cai quando tem que cair, porque obedece à gravidade e ao tempo biológico.
O ser humano, no entanto, é o único que pode olhar para o seu próprio criador ou para a sociedade e dizer não. Nós somos os autores da nossa própria história, e essa autoria nos torna responsáveis diretos pelo nosso sucesso ou pelo nosso fracasso. É justamente nessa ausência de trilhos preestabelecidos que nasce o nosso patrimônio mais valioso e, ao mesmo tempo, o nosso fardo mais pesado: a liberdade. E a liberdade cobra o seu preço em uma moeda dolorosa chamada angústia. Nós nos angustiamos porque não temos garantias. A incerteza nos acompanha a cada esquina, e a angústia é o sentimento inevitável de quem percebe que a escolha é inteiramente sua e de mais ninguém.
Para compreender a força brutal desse drama moral no cotidiano, basta olhar para as escolhas reais que a vida nos impõe. Durante as aulas na universidade, uma jovem estudante de jornalismo — dotada de um altíssimo capital estético e que havia superado a concorrência feroz do vestibular — compartilhou um dilema que ilustra perfeitamente essa angústia da escolha. Ela contou que tem um namorado que estuda engenharia mecatrônica na faculdade vizinha, um rapaz mirrado, focado em seus projetos acadêmicos, por quem ela tem um carinho genuíno. No ano anterior, durante os famosos jogos universitários do JUCA, em Avaré, ela decidiu ir curtir a semana de folga e diversão, mas o namorado não pôde acompanhá-la, pois estava trancado em um laboratório terminando de construir um robô.
Ela desceu do ônibus em Avaré sozinha e, em questão de minutos, percebeu que a competição esportiva era apenas um pretexto muito sem vergonha para uma grande e apoteótica celebração de prazeres carnais. Ali, no meio da euforia dos jovens, deparou-se com um rapaz de sunga, sem camiseta, com uma musculatura saliente que humilharia o seu mirrado mecatrônico. Sem rodeios, o rapaz na sunga propôs a ela uma bimbada mágica, uma cópula furtiva e rápida, garantindo que sumiria no horizonte logo após o ato, sem deixar rastros ou cobranças. Foi nesse exato momento que a angústia se materializou na sua forma mais pura diante daquela estudante. O dilema clássico e eterno: dar ou não dar?
De um lado do ringue existencial estava Eros, o amor baseado no prazer imediato, no desejo daquilo que nos faz falta no calor do momento. O prazer é um valor gigante na existência humana; ele nos ajuda a reduzir o desconforto, a nos acomodar na cadeira do mundo, a buscar o calor ou o frio que acalenta o corpo. Pelo valor do prazer, a escolha racional seria aceitar o convite do rapaz de sunga. Mas do outro lado do ringue estava Philia, o respeito pelos compromissos assumidos, a lealdade ao mecatrônico que estava lá atrás construindo o seu robô, a preservação de uma relação construída com carinho. Philia também é um valor imenso; sem ele, não há amizade, não há casamento, não há país e não há convivência possível.
Se a jovem escolhesse o prazer de Eros, desrespeitaria Philia e carregaria o remorso de trair a confiança do namorado. Se escolhesse o respeito de Philia, recusando a proposta, passaria o resto dos jogos olhando para o rapaz de sunga com um arrependimento latente, imaginando o tamanho do prazer que deixou escapar. Não há saída limpa na tragédia da liberdade. Qualquer que fosse a decisão, ela perderia alguma coisa. Ela experimentou a angústia pura porque percebeu que não existe um PowerPoint divino, projetado nas nuvens, contendo uma tabela com o top dez dos mandamentos em ordem decrescente de importância para nos dizer qual valor deve prevalecer em cada segundo de aflição.
Quando Deus entregou as tábuas dos dez mandamentos a Moisés, Ele enviou os valores, mas não incluiu um manual de prioridades dizendo se o respeito vale mais do que a preservação da própria vida em um momento limite. Diante do conflito entre dois valores sagrados, as regras divinas silenciam e nos devolvem ao nosso livre-arbítrio. Nós somos soberanos e solitários em cada deliberação. Se houvesse um gabarito cósmico, uma fórmula matemática ou uma planilha pronta para a vida feliz, nós seríamos apenas robôs executando um programa, como os gatos e as peras na pereira. A nossa glória e a nossa tragédia estão no fato de que o gabarito não existe. O PowerPoint celestial está vazio, a escolha é sempre nossa, e o fardo de carregar as consequências de cada decisão é o preço inevitável que pagamos por sermos homens.
Pare em frente às gôndolas centrais das livrarias de aeroporto e você verá a imagem viva de uma patologia contemporânea. Estão lá, empilhados sob o rótulo sedutor de best-sellers, manuais prometendo a felicidade em dez passos fáceis, receitas milagrosas para eliminar o seu chefe, guias para despertar o poder de glândulas esquecidas e até pulseiras do equilíbrio com suposta tecnologia da NASA que você deve usar rigorosamente no pulso contrário ao do relógio para sintonizar sua existência. Essa obsessão comercial por soluções prontas revela uma profunda incapacidade de lidar com a vida como ela é. Afinal, se houvesse de fato uma fórmula, uma receita infalível para erradicar a tristeza do mundo, nós já a teríamos aplicado e a dor seria apenas uma memória arqueológica. Mas a verdade é que, desde que o homem existe, caminha o angustiado de um lado, sem saber o que fazer da vida, e o charlatão do outro, vendendo unguentos, mantras e piruetas garantidoras de uma existência sem sobressaltos. Já passou da hora de amadurecer existencialmente e aceitar que a tristeza e a imperfeição fazem parte do fluxo inevitável do mundo.
Essa tiranização corporativa é o que o mercado costuma batizar de qualidade de vida. Mas o que é essa qualidade de vida senão um cardápio pronto, um prato feito que nos enfia goela abaixo uma pauta uniforme de bem-estar? Medem-na por estatísticas frias: a média de quilos de carne consumidos por ano, a redução artificial da jornada de trabalho ou a quantidade de praças arborizadas em Curitiba. Trata-se de uma armadilha retórica! A qualidade de vida é um comercial engarrafado, uma caixa de sapatos padronizada onde tentam enlatar a singularidade humana. Em contrapartida, a verdadeira vida de qualidade é singular, intransferível e imensurável. É aquilo que faz a sua existência fazer sentido para você, e apenas para você. O que constitui o ápice da minha alegria — que é estar esgoelando-me numa sala de aula de graduação em plena quinta-feira à noite — pode ser o inferno ou o tédio absoluto para o seu ser. Eu detesto praia, abomino cachoeiras e sinto-me perfeitamente alegre na Avenida Paulista às seis da tarde de uma sexta-feira chuvosa, parado num trânsito caótico. Haverá tantas vidas de qualidade quantas forem as células vivas pulsando sobre a Terra, e tentar uniformizá-las sob um padrão estatístico é a mais violenta das tiranias.
Para ilustrar o ridículo absoluto dessa imposição, lembro de uma viagem tragicômica que fiz à Serra do Cipó, ao norte de Belo Horizonte. Uma amiga oftalmologista, preocupada porque eu supostamente só trabalhava e não tinha qualidade de vida, arrastou-me junto com minha esposa para aquele refúgio natural. Fomos recebidos por um guia local, um verdadeiro Mussolini do Cipó, um Hitler verde que comandava o passeio. Ao chegarmos à cabana, ele anunciou com orgulho ufanista que ali tudo era rústico. Ora, rústico é apenas um eufemismo russo para ruim! Naquela pousada, para abrir a torneira da pia, o cano inteiro girava junto e você precisava fazer um malabarismo de pipoqueiro para lavar as mãos. Ao sentar na privada, ela estava solta de um lado, obrigando-me a empinar a nádega oposta para encontrar o equilíbrio e defecar em oblíquo. Dormimos numa cama que nos afundava numa posição côncava insuportável. Mas o ápice da tortura rústica veio no dia seguinte. Sob um sol escaldante, caminhamos por horas até chegar a um riacho congelante. O Hitler verde ordenou que todos pulassem na água para contrair as artérias e purificar a alma. Ao entrar, senti que toda a parte submersa do meu corpo reduzia seu volume em dois terços. Aquilo não era alegria! Alegria é expansão, é potência que se agiganta; encolhimento é tristeza pura. Mas para aquele Mussolini do Cipó, aquela tortura térmica era a definição inquestionável de qualidade de vida. Ele não suportava que o meu mundo de alegria fosse a Avenida Paulista e o dele a cachoeira, pois nenhum tirano tolera a diversidade.
Essa ilusão de que podemos fixar e repetir o que nos faz bem esbarra na implacável regra filosófica da pamonha. Imagine-se viajando com fome pela estrada e deparando-se com o Rancho da Pamonha. Você para o carro e come a primeira pamonha. Aquele encontro é glorioso, transcendentemente alegre, um verdadeiro acontecimento que alavanca sua potência de agir. Você sente que a vida vale a pena. Mas aí você comete o erro clássico de tentar transformar aquele milagre em fórmula, em autoajuda. Você pede a segunda pamonha. E ela já lhe alegra menos, porque você esqueceu um detalhe elementar: o comedor da segunda pamonha não é mais o comedor da primeira, pois a primeira pamonha já transformou você. Se você for teimoso e insistir em seguir a receita, pedindo a terceira, a quarta, até chegar à décima pamonha, o seu sangue se transformará em suco de milho e você morrerá. A mesmíssima pamonha que lhe trouxe a salvação e a alegria agora lhe traz a ruína e a morte. O valor não está na pamonha em si, mas no ineditismo do encontro. Querer congelar a alegria de um instante e transformá-la em rotina é desrespeitar o fluxo impermanente da própria vida.
Essa cobrança insana por uma felicidade constante e linear é o que destrói casamentos e desestrutura existências. A lua de mel é a primeira pamonha de uma união. Mas, depois de cinco anos, é impossível continuar comendo pamonha no café, no almoço e no jantar. Esperar do cônjuge ou do mundo um fluxo ininterrupto de contentamento é ignorar a dinâmica real da convivência. Você acorda de manhã, vive um momento de sublime conexão amorosa com sua esposa, e logo em seguida vai ao banheiro. Lá, ao urinar, à medida que o jato vai perdendo a força, você acaba molhando a tábua do vaso. Sua esposa entra logo depois e grita, indignada: você é um porco, mijou na tábua! No intervalo de minutos, a mesma criatura que acabou de lhe proporcionar alegria agora lhe traz a tristeza da bronca. Isso é a vida real. A imperfeição, o conflito e o desalinhamento fazem parte do tecido da existência. Querer viver em um estado de eterna harmonia esterilizada, sem fumaça e sem atritos, é negar a nossa humanidade e tentar viver como gatinhos domesticados, abrindo mão da nossa soberana e angustiante liberdade de ser humano.
No meio desse mundo apressado, onde as pessoas correm sem saber exatamente para onde vão e com frequência se sentem cercadas por incompreensões, há um cansaço que não é do corpo, mas da própria alma. É o peso de uma existência que parece ter se transformado em uma repetição mecânica de tarefas e obrigações. Diante dessa exaustão generalizada, a filosofia nos oferece um sopro de vida, um segredo antigo que Spinoza formulou com precisão cirúrgica. Para ele, a alegria não é um estado de espírito passivo ou uma simples reação ingênua; a alegria é a passagem para um estado mais perfeito do próprio ser. É um ganho real de potência de agir, de libido, de tesão pela vida e de vontade de fazer acontecer. Quando você experimenta a alegria, você se expande, seu horizonte se alarga e você se sente capaz de enfrentar o mundo com a força de um gigante. A tristeza, por outro lado, é exatamente o oposto: é o apequenamento dessa potência, o encolhimento das nossas forças. É aquela sensação sufocante de quando você está no auge da sua energia, explicando algo apaixonadamente, e de repente a porta se abre e entra a secretária medonha do departamento, com aquela cara de poucos amigos, mandando você calar a boca porque está gritando demais. Naquele instante, num piscar de olhos, toda a sua potência de agir desmorona, murcha e se esvai. A vida vira um fliperama existencial, oscilando entre encontros que nos alavancam e encontros que nos decompõem e agridem.
Para compreender como expandir essa potência e blindar a alma contra o apequenamento cotidiano, precisamos visitar as três grandes concepções de amor que a história do pensamento ocidental nos legou. São três caminhos distintos, três formas de sentir e de nos relacionarmos com o mundo que nos cerca, representadas por Platão, Aristóteles e Cristo.
A primeira dessas concepções é o Eros de Platão. Quatro séculos antes de Cristo, os gregos já sabiam que o desejo é o motor que nos empurra para a frente. Para Platão, amar é desejar, e o desejo é, em sua essência, a falta. Nós amamos e desejamos aquilo que não temos, aquilo que nos falta e aquilo que ainda não somos. É um amor que vive da distância, da busca e do desencontro. O problema é que, no momento em que conquistamos o objeto do nosso desejo, a falta desaparece, o desejo morre e, por consequência, o amor se extingue. É exatamente o que acontece na infância com os brinquedos novos. A criança passa meses desejando ardentemente aquele videogame portátil, ama o aparelho com todas as forças da sua alma enquanto ele está na vitrine da loja. Mas, assim que ganha o presente de Natal, a falta se faz presença, o desejo se desintegra e aquele brinquedo outrora sagrado acaba esquecido em um baú de desejos mortos pelo consumo. Eros é o amor do desempregado que sonha com o trabalho, mas que, ao conseguir o emprego, passa a desejar a folga e as férias. No mundo corporativo, Eros é a meta estampada no PowerPoint do início do ano: algo que ainda não temos, que perseguimos com sangue nos olhos e faca nos dentes, mas que, assim que é alcançado, é imediatamente substituído por um sarrafo ainda mais alto. Eros é fascinante, mas é intrinsecamente triste, porque nos condena a uma oscilação perpétua entre a dor de não ter e o tédio de já possuir.
Para superar essa armadilha da falta, Aristóteles propõe uma segunda forma de amor, a Philia. Philia não é o desejo pelo que falta, mas a alegria pura pela presença. É o amor pelo encontro, o contentamento com o mundo exatamente como ele se apresenta diante de nós. Philia é a alegria de degustar uma boa comida, de dar uma aula para os alunos que já estão na sala, de olhar para a pessoa amada que está ao seu lado e sentir-se profundamente grato por sua existência. Enquanto desejar o novo e o inédito é algo que nos aproxima da animalidade mais básica, conseguir se alegrar com o que já possuímos é um sinal de elevadíssima sofisticação espiritual. É fácil se apaixonar por um rosto desconhecido, mas alegrar-se com a presença da mesma pessoa vinte e cinco anos depois, encontrando encanto na repetição do cotidiano e no abraço de sempre, requer uma sutileza que pouquíssimos conseguem alcançar. Philia é o amor que nos reconcilia com o presente e nos ensina que a vida boa acontece no aqui e no agora, transformando a nossa jornada em um happy hour contínuo, onde o trabalho e a felicidade finalmente se misturam.
Mas existe um terceiro amor, aquele que de fato nos faz flutuar e transcende as fronteiras do eu: o Ágape de Cristo. Ágape não é o desejo do amante, nem a sua alegria pessoal; Ágape é o amor focado inteiramente na alegria do amado. Nesse sentimento sublime, o amante está disposto a recuar para que o amado avance, a se apequenar para que o amado se agigante, e a fazer absolutamente tudo para que o outro sorria, mesmo que isso custe o seu próprio bem-estar. É o que os antropólogos chamam de sagrado: aquilo que reconhecemos que vale mais do que a nossa própria vida. É o sentimento visceral que atravessa um pai na sala de espera de uma UTI, vendo sua filhinha de quatro anos intubada e sofrendo com uma enfermidade rara. Naquele momento de dor insuportável, o pai não hesita em sussurrar para o universo: troca comigo, me intuba no lugar dela, me massacra com uma dor vinte vezes pior, mas libera essa menina. Ágape também se manifesta nos pequenos milagres do cotidiano, como na história daquele passageiro desesperado, preso no trânsito caótico a caminho do aeroporto, que chega ao guichê e encontra o check-in fechado. Diante de sua fisionomia de terror, uma funcionária anônima, um verdadeiro anjo no meio de um mundo de demônios, decide correr contra o tempo, pegar seus documentos e garantir o seu embarque simplesmente porque não suportou testemunhar a tristeza de um estranho.
O grande pulo do gato da filosofia, a maior lição que você pode carregar para a vida, é perceber que ao agir por Ágape, dedicando sua energia e suas forças à alegria do outro, ocorre um fenômeno maravilhoso. O amado se beneficia, sem dúvida, mas, por uma estranha e mágica razão, você também se encanta. Nesse ato de entrega e generosidade pura, você consegue transcender a sua animalidade feroz, libertando-se daquele egoísmo apequenador que nos tiraniza diariamente. Experimenta-se, então, uma indescritível sensação de leveza, de paz e de transcendência moral, onde a sua própria alma se purifica e se expande. É assim, amando na falta, alegrando-se na presença e doando-se pela felicidade alheia, que recuperamos o verdadeiro vigor de existir e nos reconciliamos com a beleza de sermos humanos.





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