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O Segredo Sujo por Trás da Busca por Propósito (Que Ninguém Conta)

Atualizado: 20 de jan.

O que você realmente quer da vida?


É uma pergunta que me persegue desde que me entendo por gente, a "Busca por Propósito". Não a versão de resposta rápida – “ser feliz”, “ter sucesso” – mas aquela que surge no silêncio, antes de dormir, e deixa um gosto amargo de desconexão. Passei anos lendo livros de autoajuda, escutando gurus e seguindo a fórmula padrão: encontre sua paixão, monetize seu talento, deixe sua marca no mundo.


homem caminhando para horizonte
O Segredo Sujo por Trás da Busca por Propósito (Que Ninguém Conta)

O conselho convencional é, à primeira vista, irresistível. Ele nos veste com o manto do herói de sua própria jornada. Nos diz que dentro de nós há um propósito único esperando para ser descoberto como um tesouro, e que uma vez encontrado, ele vai alinhar cada dia com significado, motivar cada esforço e calar a voz que pergunta “é só isso?”. É a promessa de um norte moral e profissional. Um antídoto contra a vida medíocre.


Mas e se essa busca incessante pelo Seu Grande Propósito for justamente o que está te deixando doente? E se, ao invés de uma bússola, ela for um peso?


Por séculos, enquanto a sociedade erguia estátuas para os “grandes homens” de missão evidente, algumas das vozes mais lúcidas da filosofia observaram esse drama com um ceticismo profundo. Elas não viam a busca por um propósito grandioso como solução, mas como uma nova forma de agonia. E o que elas sugerem no lugar é tão radical, tão contraintuitivo, que soa quase como um insulto ao nosso orgulho moderno.

Hoje, vamos explorar a sabedoria perturbadora de três pensadores que não têm um manual de propósito para te vender. Eles oferecem algo diferente: um caminho para a paz que começa no momento em que você para de procurar.


Esse é o Canal Método e Valor. Tudo o que você vai ouvir ou ler vem de horas em bibliotecas poeirentas, de cafés amargos e dos meus próprios pensamentos existenciais tentando fazer sentido disso tudo.


Se essa conversa ressoar com você e você quiser ir além dos vídeos, você pode se inscrever no canal e conhecer nosso site. É de graça, e é o melhor jeito de mantermos esse diálogo.

Sem mais delongas, vamos ao que interessa.


A LIBERDADE DE NÃO IMPORTAR

Visualize um funcionário público do século XIX, de cartola e fraque, andando metodicamente pelas mesmas ruas de Copenhague todos os dias. Os vizinhos o conheciam apenas como um sujeito solitário e excêntrico. Ninguém naquela cidade suspeitava que, sob aquela aparência de burocrata comum, Soren Kierkegaard estava travando as batalhas filosóficas mais ferozes da sua época – e fundando, no sigilo, o que chamaríamos de existencialismo.


Kierkegaard não escrevia para ser aplaudido em salões literários. Ele publicava sob pseudônimos extravagantes, como “Victor Eremita” (o vitorioso eremita) ou “Johannes de Silentio” (João do Silêncio). Para ele, a busca por um “propósito” grandioso e publicamente reconhecido era uma armadilha do ego, uma forma de fugir da única pergunta que importava: como você, indivíduo singular, vive sua própria existência?


No centro do seu pensamento estava uma crença desconcertante: a de que a angústia – aquela sensação de vazio e livre-arbítrio esmagador – não é um problema a ser resolvido, mas o sinal mais claro da sua liberdade. Enquanto você está angustiado, está vivo para as possibilidades. No momento em que se agarra desesperadamente a um “propósito” externo – seja uma carreira, um papel social ou uma causa –, você troca sua liberdade por uma identidade emprestada. Você deixa de ser um indivíduo para se tornar um exemplar.


Ele escreveu, em seu diário, uma frase que corta como uma faca:

“O resultado da minha vida é como se um escritor tivesse distribuído letras do alfabeto aleatoriamente, dizendo ao leitor: ‘leia se puder’. A maioria das pessoas, diante dessas letras soltas, busca desesperadamente formar a palavra certa, a frase perfeita que dê sentido ao caos. Mas e se a tarefa não for encontrar a palavra? E se for aprender a habitar o espaço entre as letras?”


Isso não é exatamente o que vemos hoje com a tirania da otimização pessoal? Nossos feeds são um coro incessante: “encontre seu nicho”, “construa sua marca pessoal”, “deixe seu legado”. Transformamos a própria existência em um projeto de marketing. A angústia de não ter um “propósito claro” é medicalizada como ansiedade, um bug a ser corrigido com coaching e planilhas de vida. Kierkegaard diria que estamos anestesiando o sintoma da nossa própria liberdade.


Então, talvez a pergunta não seja “qual é o meu propósito?”, mas “eu tenho coragem de não ter um?”. E se a gente tentasse, por uma semana, não se apresentar como “o que faz” ou “no que acredita”, mas simplesmente como alguém que está… aqui? Habitando o espaço desconfortável e fértil entre as letras soltas da própria vida, sem a pressão urgente de formar com elas um slogan.

Imagine um homem que transformou o mau humor em filosofia. Arthur Schopenhauer — barba despenteada, olhar de desdém, um poodle como único confidente — passou a vida escrevendo tratados sobre por que tudo é uma grande decepção. E, paradoxalmente, nesse pessimismo radical, ele escondeu um dos conselhos mais libertadores que você pode receber.


O alemão não via a vida como uma oportunidade brilhante. Ele a enxergava como um teatro absurdo, movido por uma força cega e insaciável: a Vontade de Viver. Essa Vontade é o motor secreto por trás de tudo que você deseja — o impulso de comer, de conquistar, de possuir, de ser amado, de deixar uma marca. É ela que sussurra: "Mais. Você precisa de mais."


E aqui está o truque sujo da existência: a Vontade é uma trapaceira. Ela nos coloca na esteira infinita da insatisfação. Você corre atrás de um emprego melhor, e quando o alcança, a Vontade já está apontando para o próximo cargo. Você compra o celular novo, e a novidade dura uma semana. Você busca likes, elogios, status — uma sede que nunca se sacia. É uma caça sem presa, onde o prazer é apenas a pausa momentânea entre uma dor e outra.


Para Schopenhauer, a felicidade convencional — aquela que a sociedade vende — é uma ilusão movida a essa engrenagem. É você achando que está pilotando a esteira, quando na verdade está sendo arrastado por ela.

Mas e se houver uma saída?


Schopenhauer não propõe que você destrua a Vontade (isso seria trabalho para monges e santos). Ele propõe algo mais acessível: sabotá-la com inteligência.


O segredo não está em alcançar mais, mas em desejar menos.


Ele não pregava uma vida de privação miserável, mas de escolha estratégica. Em vez de correr atrás do prazer ruidoso e fugidio (festa, ostentação, aplausos), ele sugeriu buscar o prazer silencioso e duradouro: a calma, a leitura, a contemplação, uma boa conversa, uma caminhada sem destino. São prazeres que não dependem de ninguém, que não custam caro e que não deixam dívidas emocionais.


É a filosofia do minimalismo existencial.


A fórmula dele é brutalmente simples:


  1. Identifique tudo na sua vida que é movido pelo desejo de impressionar, acumular ou escalar.

  2. Pergunte-se: "Isso me traz paz verdadeira ou apenas um alívio temporário da ansiedade?"

  3. Corte pela metade. A ambição, os compromissos sociais vazios, a necessidade de validação, o consumo por impulso.


O que sobra é o seu núcleo de paz. Um espaço com menos sirenes da Vontade para apagar, e mais silêncio para ouvir a si mesmo.

Num mundo que grita "OTIMIZE SUA VIDA!", "AUMENTE SUA PRODUTIVIDADE!", "CONQUISTE MAIS!", o conselho do velho rabugento é um ato de rebelião silenciosa: "Desacelere. Desapegue. Descomplique."


Ele não promete um paraíso. Promete algo mais realista e, talvez, mais precioso: uma trégua. Um dia após o outro, suportável. Uma existência onde você não é mais um refém dos seus próprios desejos, mas um observador lúcido — e até um pouco sarcástico — do grande circo da Vontade.


Afinal, como ele mesmo escreveu, o maior presente não é a felicidade radiante, que é rara e frágil. É o presente sem dor. Aquele dia comum, tranquilo, em que nada dói, nada falta e nada nos assombra. E esse dia, quando ele chega, já é vitória.


A sociedade não quer que você ouça isso. Ela precisa que você continue na esteira, consumindo, produzindo, desejando. Mas o velho e seu poodle sussurram outra verdade: a liberdade começa quando você ousa pisar fora dela, sentar na grama e simplesmente não fazer nada — sem culpa, sem celular, sem a urgência de ser alguém.

A Sabedoria do Caranguejo: Por que Ser "Inútil" é Seu Superpoder


Enquanto Confúcio desenhava mapas detalhados de como a sociedade deveria funcionar — hierarquias, rituais, deveres —, Zhuangzi fazia algo radical: ele ria. O filósofo taoísta era o mestre da virada de perspectiva, o gênio que via a sabedoria na árvore torta que nenhum lenhador queria, e a liberdade no peixe que ninguém conseguia pescar.


Sua crítica central é um soco no estômago da nossa época: "A vida tem limites. A mente, não."


Pare um segundo para digerir isso. Seu corpo é finito: precisa dormir, comer, descansar. Sua energia tem um tanque. Seu tempo na Terra tem uma data de validade. Já a sua mente… ah, a mente é um cavalo selvagem. Ela pode, em um único dia, sonhar em ser CEO, planejar uma viagem ao Japão, imaginar um romance perfeito e se preocupar com a aposentadoria — tudo enquanto você está preso no trânsito.


Aqui está a armadilha moderna, projetada por Zhuangzi há 2.300 anos: vivemos numa tensão suicida entre uma vida limitada e uma mente ilimitada.

A sociedade de "conquistas" em que vivemos não apenas permite essa tensão — ela a celebra. O burnout não é um acidente; é o subproduto lógico de um sistema que recompensa quem corre mais rápido que seu próprio fôlego. Postamos no LinkedIn sobre "trabalhar enquanto eles dormem", glorificamos a fadiga como medalha de honra e confundimos exaustão com produtividade. Estamos tentando regar um jardim de um hectare com um copo d'água.


O Caminho do Meio Não é Mediocridade. É Sobrevivência Inteligente.


A solução de Zhuangzi soa quase como uma heresia numa cultura obcecada por extremos: o caminho do meio. Não é sobre ser morno, mas sobre ser sábio.


Ele propõe um jogo mental subversivo:


1.  Pare de buscar fama pelo bem. Fazer o certo movido pela necessidade de reconhecimento é apenas outra forma de escravidão. A virtude verdadeira é discreta, não performática.

2.  Pare de evitar o mal por medo de punição. Viver na sombra do castigo é viver refém. A integridade deve nascer de dentro, não do temor.

3.  Siga a linha tranquila.


Essa "linha tranquila" é a chave. Não é a estrada larga e barulhenta do sucesso espetacular, mas a trilha estreita da adequação. É o ritmo que seu corpo e sua mente podem sustentar por décadas, não por trimestres.

Em termos práticos, hoje, isso significa:


Dizer "não" a uma promoção que dobrará sua carga de trabalho e triplicará sua ansiedade.


Ignorar o FOMO (Fear Of Missing Out) e a pressão por "side hustles", se o que você mais precisa é de uma noite de sofá e silêncio.


Valorizar o "suficiente". A casa suficiente, o salário suficiente, o reconhecimento suficiente. O suficiente é um luxo que poucos se permitem.


Zhuangzi celebrava os "inúteis". A árvore de galhos tortos que não serve para madeira vive por séculos. O jarro "imperfeito" que não cabe nos padrões é justamente o que guarda a água. Sua suposta "limitação" pode ser sua maior defesa contra uma máquina social que quer te consumir até a última gota de energia.


Ao abraçar seus limites, você não está se rendendo. Está construindo fortificações. Está trocando a corrida desesperada por um maratona elegante. Você pode não ter um perfil LinkedIn bombando com conquistas, mas terá algo que a produtividade tóxica rouba: saúde para aproveitar as manhãs, tranquilidade para desfrutar as refeições e anos — muitos anos — para viver, e não apenas para produzir.

No final, a maior rebeldia contra um sistema que idolatra o excesso é viver dentro do seu próprio vaso. Nem mais, nem menos. Apenas o que cabe. E descobrir, como o velho Zhuangzi sorrindo sabia, que dentro desse vaso há um universo inteiro de paz.


Chame Epicuro de hedonista e você estará certo — mas estará imaginando tudo errado. Enquanto o hedonismo moderno é uma pintura barroca de excessos, o dele era um desenho em nanquim: linhas limpas, espaços vazios, precisão matemática. Seu objetivo supremo não era a explosão de prazer, mas a ausência de dor. A ataraxia: a serenidade inquebrável.

E é aqui que sua filosofia dá um golpe de mestre: para maximizar a paz, você deve fazer uma engenharia reversa do desejo.


Epicuro não via os desejos como iguais. Ele os classificava como um general avalia riscos antes da batalha:


1.  Desejos Naturais e Necessários: Comer quando se está com fome. Beber quando se está com sede. Ter abrigo. A amizade. São desejos fáceis de satisfazer, baratos, e cuja saciação traz alívio imediato e duradouro.

2.  Desejos Naturais mas Desnecessários: Comer manjares raros. Beber vinho caríssimo. Sexo. São prazeres que intensificam, mas não sanam uma necessidade básica. O risco aqui é a dependência: você troca a fome (fácil de resolver) pela fome de caviar (difícil e cara).

3.  Desejos Vãos e Vazios: Fama, poder, riqueza ilimitada, aplausos. São desejos insaciáveis por natureza. Persegui-los é como correr atrás do horizonte — uma sentença de ansiedade perpétua.

O sexo, na lógica epicurista, é a armadilha perfeita. Ele se senta perigosamente na fronteira entre o natural e o desnecessário. É biologicamente compreensível, mas estratégicamente arriscado.


Por que o Prazer Supremo é um Cavalo de Troia


A obsessão sexual, para Epicuro, é uma falha de cálculo existencial. Ele enumerava os custos ocultos:

  1. Custo Social: Ciúmes, conflitos, quebra de laços, fofocas.

  2. Custo Emocional: Ansiedade de performance, dependência afetiva, paixão como um estado de enfermidade mental.

  3. Custo Prático: Doenças, gravidez indesejada, perda de tempo e recursos.

  4. Custo Existencial: A distração. A mente obcecada é uma mente incapaz de filosofar, de alcançar a ataraxia.


Sua conclusão foi brutal: "Os prazeres do amor nunca beneficiaram um homem, e ele tem sorte se não o prejudicarem."

Em uma cultura que vende o sexo como ápice da realização humana — dos anúncios de perfume aos roteiros de cinema —, Epicuro oferece um antídoto de lucidez glacial. Ele pergunta: você trocaria sua paz interior, sua autossuficiência, seu tempo para pensar e conviver com amigos, por um momento de prazer que é, por definição, fugaz e seguido de vazio?


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