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Pare de Deixar o Mundo Arruinar a Sua Paz (Estoicismo)

Há momentos na história em que o ar parece tornar-se mais denso, como se uma tempestade invisível se anunciasse não no céu, mas no espírito coletivo da humanidade. Atravessámos uma pandemia que confinou o mundo aos ecrãs e ao medo do toque alheio; assistimos ao regresso da guerra em solo europeu, com imagens de destruição que julgávamos pertencer aos livros de história; e, enquanto escrevo, novos focos de tensão geopolítica emergem como cogumelos depois da chuva, alimentados por uma retórica belicista que parece ignorar as lições do passado. As notícias, esse fluxo ininterrupto que nos chega através de telemóveis, televisões e conversas de café, raramente trazem alívio. São, na sua maioria, um desfile de tragédias amplificadas, um eco ensurdecedor de um mundo que parece ter perdido o rumo.


Mesmo quando tentamos fechar as portas a este torrente de más notícias, elas infiltram-se pelas frestas. Aparecem num grupo de WhatsApp da família, numa conversa casual com um colega de trabalho, num desabafo de um amigo que já não consegue dormir sem verificar as atualizações do conflito mais recente. E, aos poucos, instala-se uma sensação difusa de angústia, um peso silencioso que carregamos sem sequer percebermos quando começou.

Esta saturação informativa, porém, não se limita a toldar o nosso humor. Ela tem consequências concretas e visíveis no tecido social que nos rodeia. Observo, com crescente preocupação, como o vírus da polarização política infetou espaços que deveriam ser refúgios de afeto e cooperação. Famílias que outrora se reuniam em volta da mesa para celebrar a vida agora dividem-se entre "nós" e "eles" consoante a orientação partidária de cada membro. Amizades de uma década desfazem-se em discussões acaloradas sobre ideologias que, na prática, pouco influenciam o quotidiano de cada um. Locais de trabalho, que deveriam ser espaços de colaboração e crescimento, transformam-se em campos de batalha onde a produtividade cede lugar à necessidade de provar quem está do lado "certo" da história. Nunca como agora a política cortou tão fundo as relações humanas, transformando o diferente num inimigo, e a divergência de opinião numa declaração de guerra.

A pergunta que muitos de nós fazemos, em momentos de silêncio e lucidez, é simples e antiga: como manter a serenidade quando tudo à nossa volta parece desmoronar? Como preservar a sanidade mental e a capacidade de amar o próximo quando nos empurram constantemente para o ódio e a desconfiança? Como agir no mundo sem sermos consumidos pela sua loucura?

É aqui que a filosofia estoica, curiosamente, emerge não como uma relíquia de museu, mas como um instrumento surpreendentemente atual. Os estoicos não foram pensadores de torre de marfim; viveram tempos de profunda incerteza, agitação social e colapso das ordens políticas estabelecidas. Marco Aurélio governou um império à beira da fragmentação enquanto escriba reflexões que ainda hoje nos comovem. Epicteto, escravo tornado filósofo, ensinou a liberdade interior precisamente numa sociedade onde a liberdade exterior era um privilégio. Séneca aconselhou um imperador tirano enquanto escrevia sobre a brevidade da vida e a arte de viver bem. Eles conheceram o medo, a opressão, a injustiça. Mas recusaram deixar que essas forças externas governassem o seu espírito.

O que proponho, ao revisitar estes autores, não é uma fuga do mundo. Não se trata de nos isolarmos numa redoma de indiferença, alheios ao sofrimento alheio e às injustiças que nos cercam. Trata-se, antes, de resgatar um conjunto de ferramentas práticas — testadas pelo tempo e pela adversidade — que nos permitam navegar o caos sem sermos arrastados pela corrente. Trata-se de aprender a distinguir o que está efetivamente sob o nosso controlo daquilo que, por mais que nos aflija, permanece fora do nosso alcance. Trata-se, em suma, de construir uma cidadela interior tão sólida que nenhuma tempestade externa a possa derrubar.

O mundo externo continuará o seu curso turbulento. Guerras irão e virão. Políticos continuarão a semear divisão. Os media persistirão em amplificar o pior da natureza humana. Mas dentro de nós pode existir um espaço de clareza, paz e ação virtuosa. E é precisamente sobre esse espaço — como construí-lo, protegê-lo e habitá-lo — que este texto se debruça.


O Alarme Falso: Como Não Ser Refém do Pânico Generalizado

Vamos ao cerne da questão. Se a introdução nos ajudou a situar o desconforto que muitos de nós sentimos, é preciso agora perguntar: de onde vem, afinal, esta sensação opressiva de que o mundo está prestes a ruir? Por que razão dois vizinhos numa pacata aldeia portuguesa se sentem autorizados — ou mesmo compelidos — a discutir as tensões navais no Mar da China Meridional? Por que motivo um trabalhador fabril no interior do Brasil desenvolve ansiedade por causa de declarações de líderes políticos a seis mil quilómetros de distância? A resposta, ainda que desconfortável, é simples: porque alguém lucra com esse medo.

O alarmismo não é um subproduto acidental do sistema de informação contemporâneo; é o seu principal combustível. Os media tradicionais e as redes sociais descobriram, há muito, que a tranquilidade não vende. Manchetes sóbrias e análises equilibradas não geram cliques, não alimentam algoritmos, não mantêm olhos colados a ecrãs. A receita para o sucesso, neste ecossistema, é a permanente dosagem de adrenalina informativa: uma crise aqui, um colapso além, uma ameaça existencial acolá. O objectivo declarado já não é informar, mas sim capturar a atenção — e a melhor forma de o fazer é convencer o receptor de que algo terrível está prestes a acontecer e de que ele precisa, urgentemente, de se manter ligado para saber o desfecho.

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, muito antes da era digital, já havia dissecado este mecanismo com precisão cirúrgica. Para Schopenhauer, o jornalismo era, "pela natureza da sua vocação", um ofício essencialmente alarmista. O seu propósito não residia em oferecer um retrato fiel da realidade, mas sim em amplificar o extraordinário, em transformar o vulgar em sensacional, em fazer com que o leitor sentisse que o mundo à sua volta era muito mais perigoso, instável e caótico do que efectivamente era. O que mudou, desde então, foi apenas a escala e a velocidade de propagação desta dinâmica. Onde antes existia o jornal impresso, distribuído uma vez por dia, temos agora um tsunami ininterrupto de notificações, alertas e manchetes que nos perseguem para onde quer que vamos. O alarmismo tornou-se o pano de fundo permanente da nossa existência.

É precisamente neste ponto que a filosofia estoica nos oferece um antídoto poderoso. Não se trata, note-se bem, de negar a existência de problemas reais. Há, de facto, conflitos, injustiças e ameaças concretas que merecem a nossa atenção. O que os estoicos nos ensinam é a distinguir entre o problema em si e a narrativa amplificada e deformada que dele se constrói. A crise, diriam eles, não está primariamente no mundo — está na nossa interpretação temerosa do que acontece no mundo.

Epicteto, o grande filósofo estoico que começou a vida como escravo, legou-nos uma metáfora luminosa para compreendermos esta dinâmica. Numa das suas palestras, recolhidas nas Diatribes, Epicteto convida os seus alunos a imaginarem o seguinte cenário: uma cidade precisa de enviar um batedor para observar o território inimigo e avaliar o estado das coisas. Que tipo de homem se deve escolher para esta missão? Certamente, responde Epicteto, não um cobarde. Porquê? Porque o cobarde vê perigo em cada sombra. O mais ligeiro movimento de um arbusto, o mais leve rumor de passos ao longe, a mais inofensiva movimentação de populares — tudo lhe parece uma ameaça iminente. O batedor cobarde regressa à cidade em pânico, com os olhos esbugalhados e a voz trémula: "Fugi, senhores! O inimigo está sobre nós! A morte é terrível, o exílio é aterrorizador, a pobreza é uma desgraça sem fim! Tudo está perdido!"

Epicteto contrapõe a este retrato o exemplo de Diógenes, o filósofo cínico, que também foi enviado como batedor. Diógenes, porém, observa a mesma realidade com olhos diferentes. Regressa calmo, sereno, inabalável. "Não fui atingido por nenhum projéctil", diz. "Não recebi nenhum ferimento. Não fugi de ninguém." A sua conclusão é desconcertante na sua simplicidade: "Tudo está cheio de paz." A guerra, o perigo, a catástrofe que o cobarde via em toda a parte não passavam, afinal, de projecções do seu próprio medo.

O que Epicteto nos revela com esta parábola é algo profundamente subversivo: a realidade é, em larga medida, aquilo que o nosso carácter nos permite ver. Dois homens observam o mesmo território. Um vê um mundo em chamas; o outro vê um mundo habitável, com desafios pontuais mas sem colapso iminente. A diferença não está nos factos — está na lente através da qual são interpretados. O cobarde projecta o seu medo interior na paisagem exterior e convence-se de que o perigo está em toda a parte. Diógenes, senhor de si mesmo, mantém a clareza mesmo em território hostil.

Ora, não é exactamente isto que acontece quando nos expomos, dia após dia, ao fluxo noticioso contemporâneo? Estamos constantemente a receber relatos de batedores cobardes. Homens e mulheres cuja profissão — e cujo modelo de negócio — depende de nos convencerem de que o perigo está à porta, de que o colapso é iminente, de que o mundo nunca esteve tão mal. E nós, qual cidadão crédulo, acolhemos esses relatos sem filtro, deixamos que eles ocupem o nosso espírito, permitimos que ditem o nosso estado de ânimo e a nossa visão da realidade.

A consequência é previsível e devastadora: transformamo-nos, nós próprios, em batedores cobardes. Começamos a ver o mundo através das lentes do medo que nos foram vendidas. Um incidente local, amplificado pelos media, parece-nos o prenúncio de uma guerra civil. Uma declaração infeliz de um político soa a sentença de morte da democracia. Uma crise económica pontual anuncia, aos nossos olhos, o colapso definitivo do sistema. Perdemos a capacidade de discernir proporções, de contextualizar acontecimentos, de distinguir o sinal do ruído.

A proposta estoica não é, repito, a da ingenuidade ou da fuga. Não se trata de enterrar a cabeça na areia e fingir que os problemas não existem. Trata-se, isso sim, de treinar o nosso "batedor interior" — aquela instância da nossa psique que recebe, processa e interpreta a informação vinda do exterior — para o exercício do discernimento calmo e ponderado. Significa, na prática, perguntar: este relato que me chega é proporcional aos factos ou está deformado pelo alarmismo? Esta notícia reflecte a complexidade do real ou reduz tudo a uma narrativa apocalíptica destinada a capturar a minha atenção? A fonte que me informa é um batedor cobarde, que vê perigo em cada esquina, ou alguém que, como Diógenes, mantém a serenidade mesmo diante da adversidade?

A resposta a estas perguntas determina, em larga medida, a qualidade da nossa relação com o mundo. Se nos alimentarmos permanentemente de batedores cobardes, o nosso espírito tornar-se-á um território ocupado pelo medo, pela ansiedade e pela impotência. Se, pelo contrário, soubermos escolher as nossas fontes, dosear o nosso consumo informativo e cultivar uma atitude interior de serena lucidez, descobriremos que o mundo, apesar de todos os seus problemas, continua a ser um lugar habitável — e que a catástrofe tantas vezes anunciada não passa, afinal, de uma sombra projectada por almas assustadas.

A Armadilha da Raiva: Preservar a Mente em Meio à Estupidez Humana

Se o alarmismo é a porta de entrada para a ansiedade crónica, a raiva é o seu corrosivo complemento. Basta uma breve incursão pelos comentários de qualquer publicação nas redes sociais para encontrarmos um espetáculo desolador: pessoas que nunca se viram face a face digladiam-se com uma ferocidade que pareceria mais adequada a inimigos mortais do que a desconhecidos que partilham o mesmo acaso geográfico e temporal. Os adjetivos escalam em violência, os argumentos dão lugar a ataques pessoais, e a possibilidade de diálogo afunda-se num pântano de hostilidade gratuita.

O fenómeno, porém, não se confina ao espaço virtual. Ele transborda para a vida concreta com uma intensidade crescente. Conheço famílias onde o almoço de domingo se tornou um campo minado: basta que alguém mencione um nome político ou comente uma notícia recente para que o ambiente, antes cordial, se transforme numa arena de acusações mútuas. Pais e filhos que se amam deixam de se falar durante dias por causa de alinhamentos partidários. Amigos de longa data descobrem, com perplexidade, que a sua relação não sobreviveu à prova da divergência ideológica. Nos locais de trabalho, a polarização política começa a corroer a colaboração e a produtividade, transformando colegas em adversários e projetos comuns em campos de batalha surdos.

Há um fenómeno curioso e profundamente irritante que acompanha esta escalada: a celebração da estupidez. Nunca como agora tantas pessoas se sentiram autorizadas a opinar com tanta convicção sobre assuntos que desconhecem tão profundamente. A opinião pessoal, essa entidade intocável e sagrada da modernidade, é brandida como se equivalesse a conhecimento especializado. Os factos, outrora o fundamento mínimo de qualquer discussão minimamente séria, são descartados como "narrativas" ou "construções". E quem ousa apontar a incongruência entre o que se diz e o que é — quem tenta, ingenuamente, "corrigir" o interlocutor — é imediatamente acusado de elitismo, arrogância ou, no vocabulário da moda, de "faltar ao respeito".

Confesso que também já caí nessa armadilha. Já senti aquele calor subir pela nuca ao ouvir disparates proferidos com a segurança de quem anuncia uma verdade científica. Já reuni argumentos, preparei réplicas, investi tempo e energia na tentativa fútil de demonstrar a alguém que o que dizia não correspondia aos factos mais elementares. O resultado, invariavelmente, era o mesmo: a pessoa saía da conversa mais convencida ainda das suas posições, e eu ficava com o espírito envenenado pela raiva, a tarde estragada, a energia desperdiçada. Demorei a perceber o óbvio: ninguém foi jamais convencido por um argumento numa discussão online ou numa conversa de café onde o que está em jogo não é a verdade, mas a afirmação da própria identidade.

Foi então que redescobri Sêneca e o seu tratado Sobre a Ira, um dos documentos mais lúcidos alguma vez escritos sobre esta emoção devastadora. Para Sêneca, a raiva não é, como alguns romantizam, uma força motriz para a justiça ou uma expressão legítima de indignação. É, isso sim, "uma loucura breve". Uma perturbação passageira, mas completa, da nossa capacidade de pensar com clareza. E, como toda a loucura, ela não constrói — apenas destrói. Sêneca descreve com precisão cirúrgica o processo pelo qual a raiva nos domina: começa com um estímulo exterior, uma palavra, um gesto, uma opinião que nos desagrada; segue-se um movimento interior de rejeição; e, se não cortarmos este processo na raiz, a paixão instala-se e a razão é definitivamente expulsa do governo da nossa alma. "Se uma vez ela começar a levar-nos", adverte o filósofo, "é difícil voltar a um estado saudável, pois a razão não vale nada quando a paixão foi admitida na mente, e tendo-lhe sido dada, por nossa própria vontade livre, uma certa autoridade, ela fará no futuro tanto quanto escolher, não apenas tanto quanto tu permitires."

A metáfora é poderosa: a raiva é um tirano a quem entregamos voluntariamente as chaves do nosso reino interior. Uma vez instalada, não governa com a nossa permissão, mas de acordo com a sua própria natureza cega e destrutiva. Diz coisas que nunca diríamos, faz-nos agir de formas que nunca escolheríamos, transforma-nos naquilo que, em momentos de lucidez, mais desprezamos.

Epicteto, com o seu estilo direto e prático, oferece-nos um antídoto simples para esta dinâmica. A sua analogia do banho público é um exercício de preparação mental que todos devíamos praticar. Antes de entrarmos num balneário público, diz ele, devemos lembrar-nos do que nos espera: gente que nos salpica, que nos empurra, que faz comentários desagradáveis, que tenta roubar os nossos pertences. Nada disso é desejável, mas tudo é previsível. Ora, se vamos para o banho esperando encontrar apenas pessoas educadas e bem-comportadas, qualquer desvio dessa expectativa nos irritará profundamente. Se, pelo contrário, vamos preparados para encontrar o que é natural encontrar — incluindo o pior do comportamento humano — então mantemos a nossa serenidade mesmo quando confrontados com a grosseria alheia.

Transportemos esta analogia para o nosso tempo. Quando entramos numa discussão online, quando nos sentamos à mesa com a família, quando iniciamos uma conversa no trabalho, o que é que esperamos encontrar? Se esperarmos apenas inteligência, bom senso, respeito e factualidade, a realidade tratará de nos desiludir rápida e dolorosamente. Se, pelo contrário, formos preparados para a possibilidade — aliás, para a probabilidade — de encontrarmos ignorância, confusão mental, dogmatismo e má-fé, então essas manifestações, embora continuem a ser desagradáveis, deixarão de ter o poder de nos roubar a paz interior. A nossa serenidade, aprende-se assim, não depende do comportamento alheio; depende da nossa preparação para lidar com ele.

Marco Aurélio, o imperador-filósofo, acrescenta uma camada adicional a esta compreensão. Nas suas Meditações, escritas nas tendas militares ou nos intervalos das suas atribulações políticas, ele recorda-se constantemente de que os seres humanos foram feitos para a cooperação, não para o conflito. Voltar-se contra o outro é, na sua visão, uma forma de violação da própria natureza. Mas o que fazer quando o outro, precisamente, se volta contra nós? A resposta de Marco Aurélio é simultaneamente simples e exigente: "A tranquilidade que advém quando deixas de te importar com o que eles dizem. Ou pensam. Ou fazem. Apenas com o que tu fazes." E ainda: "Não te distraias com a escuridão deles. Corre direto para a linha de meta, sem hesitar."

Há uma sabedoria profunda nesta atitude. Não se trata de indiferença em relação ao outro — Marco Aurélio, pelo contrário, recomenda que sintamos "afeição" por aqueles que erram, reconhecendo neles a mesma humanidade que em nós. Trata-se, isso sim, de uma deslocação radical do centro de gravidade da nossa atenção. Em vez de gastarmos energia a tentar corrigir o mundo, a endireitar as opiniões alheias, a punir a ignorância dos outros, concentramo-nos na única coisa que realmente nos compete: as nossas próprias ações, os nossos próprios pensamentos, a nossa própria integridade.

A liberdade interior começa exatamente aqui. Começa no momento em que abdicamos da pretensão absurda de controlar o que os outros dizem, pensam ou fazem. Começa quando reconhecemos que a estupidez alheia não é um problema nosso para resolver. Começa quando compreendemos que a raiva, mesmo quando se disfarça de virtude ou de indignação legítima, é sempre uma forma de escravidão — uma corrente que nos prende àquilo que não podemos controlar.

A resposta à estupidez, aprendemos com os estoicos, não é a raiva. É a compreensão de que o outro age, na maioria dos casos, por ignorância, por medo, por condicionamento — nunca por maldade pura. É o foco inabalável naquilo que realmente depende de nós. É a escolha consciente de não permitir que a escuridão alheia contamine a luz que ainda podemos cultivar dentro de nós mesmos. E é, sobretudo, a certeza tranquilizadora de que a nossa paz não precisa de ser refém do caos que nos rodeia.

O Dever da Justiça: Quando e Como Agir no Mundo

Chegados aqui, uma objeção legítima pode ter-se formado no espírito do leitor: esta ênfase na serenidade interior, no desapego em relação à opinião alheia, na recusa em alimentar a raiva — não será tudo isto uma forma sofisticada de passividade? Não estaremos, sob o pretexto da sabedoria, a justificar a omissão perante as injustiças gritantes que quotidianamente testemunhamos? Vale a pena enfrentar esta questão com honestidade, pois dela depende a credibilidade de tudo o que dissemos até agora.

Importa, desde logo, estabelecer uma distinção fundamental. A tranquilidade interior que os estoicos nos ensinam a cultivar não é irmã da indiferença nem prima da covardia. Não se trata de olhar para o sofrimento alheio com a frieza de quem observa um fenômeno natural sem qualquer capacidade de comoção. Trata-se, isso sim, de alcançar um estado de espírito que nos permita agir no mundo sem sermos destruídos por ele. Há uma diferença abissal entre a serenidade activa do justo e a apatia cúmplice do omisso. O primeiro age porque é justo; o segundo cala-se porque tem medo. O primeiro enfrenta as consequências com a cabeça erguida; o segundo justifica a sua inação com o véu da "prudência" ou da "neutralidade".

Os estoicos, ao contrário do que por vezes se pensa, não foram eremitas ou misantropos. Foram homens e mulheres que participaram ativamente na vida das suas comunidades, que exerceram cargos públicos, que governaram, que ensinaram, que aconselharam imperadores. A sua filosofia não os afastava do mundo; pelo contrário, dava-lhes as ferramentas para nele intervirem sem se perderem. E, entre as virtudes que cultivavam, a justiça ocupava um lugar central — ao lado da sabedoria, da coragem e da temperança. Ser estoico não significava, portanto, abandonar o compromisso com o bem comum; significava, isso sim, persegui-lo com os meios certos, pelas razões certas, e com a atitude certa.

É neste contexto que a história de Helvídio Prisco, narrada por Epicteto, adquire todo o seu relevo. Helvídio era senador em Roma, no tempo do imperador Vespasiano. Homem de convicções firmes, recusou-se a curvar-se perante as tentativas do imperador de limitar a liberdade do Senado. Vespasiano, usando do seu poder, ordenou-lhe que não comparecesse às sessões. Helvídio recusou. Ordenou-lhe então que, se comparecesse, permanecesse em silêncio. Helvídio recusou novamente. A sua posição era clara: como senador, tinha o dever de estar presente e de falar sempre que a verdade o exigisse. O imperador, irritado com tamanha desobediência, ameaçou-o com o exílio e com a morte.

A resposta de Helvídio, tal como Epicteto a regista, é um dos momentos mais sublimes da tradição estoica: "Quando então te disse que sou imortal? Tu farás a tua parte, e eu farei a minha: a tua parte é matar; a minha é morrer, mas não em fuga; a tua é banir-me; a minha é partir sem tristeza."

Reparemos na arquitetura moral desta resposta. Helvídio não desafia Vespasiano com arrogância ou ódio. Não o insulta, não o ameaça, não tenta mobilizar apoios para uma rebelião. Limita-se a constatar o óbvio: cada um tem o seu papel neste drama. O imperador tem o poder de matar e de banir; o senador tem o dever de cumprir a sua função com integridade, custe o que custar. Não há aqui qualquer ilusão sobre o desfecho possível — Helvídio sabe que pode morrer. Mas há, sobretudo, uma clareza inabalável sobre aquilo que está em jogo: a sua integridade, a sua fidelidade ao papel que escolheu, a sua recusa em negociar a verdade em troca da segurança.

O que torna esta atitude genuinamente estoica é o facto de Helvídio não depender do resultado para se sentir realizado. Ele não age para vencer, para derrubar Vespasiano, para mudar o regime. Age porque agir é a sua obrigação. O desfecho — a vida ou a morte, o exílio ou a permanência — pertence à esfera do que não controla. A sua ação, essa sim, pertence-lhe inteiramente. E é nessa pertença que encontra a sua liberdade.

Transportemos este ensinamento para o nosso tempo, com as devidas proporções. As tiranias que enfrentamos são, na sua maioria, mais subtis do que a de Vespasiano. Raramente nos ameaçam com a morte ou com o exílio. Mas convidam-nos quotidianamente à cumplicidade, à omissão, ao silêncio cúmplice. Convidam-nos a fingir que não vemos, que não sabemos, que não é connosco. E, se cedermos a este convite, a nossa serenidade interior não será virtude — será apenas o sono da consciência.

Agir com justiça, hoje, pode assumir muitas formas. Pode significar recusar ordens no local de trabalho que sabemos serem ilegítimas ou prejudiciais ao bem comum. Pode significar boicotar empresas cujas práticas violam direitos humanos fundamentais. Pode significar defender publicamente quem é injustamente atacado, mesmo quando essa defesa nos torna impopulares. Pode significar, simplesmente, não calar a verdade em conversas privadas, mesmo quando ela incomoda os nossos interlocutores. Em todos estes casos, o que está em jogo é a mesma questão: somos capazes de agir por princípio, sem exigir garantias de sucesso, sem condicionar a nossa integridade aos resultados que podemos ou não alcançar?

Importa sublinhar, para evitar mal-entendidos, que agir com justiça não significa, para um estoico, alimentar o ódio contra os injustos. Helvídio não odiava Vespasiano. Reconhecia nele um homem a cumprir o seu papel — um papel errado, injusto, mas ainda assim um papel. A sua resistência não era movida pela raiva, mas pela fidelidade a si mesmo. É esta a diferença subtil mas crucial entre a ação virtuosa e a reação passional: a primeira nasce de um compromisso interior, a segunda de uma resposta ao comportamento alheio. A primeira mantém-nos senhores de nós mesmos; a segunda entrega-nos, mais uma vez, ao domínio do que não controlamos.

Há, naturalmente, limites para esta ação. Nem todos somos chamados ao martírio, nem todas as situações exigem de nós o sacrifício supremo. O que os estoicos nos ensinam não é um heroísmo impossível, mas sim uma exigência de coerência: age de acordo com o teu papel, com as tuas circunstâncias, com as tuas possibilidades. Se és pai, o teu dever é proteger os teus filhos; se és médico, o teu dever é cuidar dos doentes; se és cidadão, o teu dever é contribuir para o bem da comunidade. Em cada um destes papéis, a pergunta a fazer é a mesma: o que é justo, neste momento, nas minhas circunstâncias? E, uma vez identificada a resposta, agir em conformidade — sem garantias, sem exigir recompensa, sem permitir que o medo das consequências nos paralise.

A serenidade estoica, vista desta perspetiva, não é o oposto da ação; é a sua condição de possibilidade. Só quem não está apegado aos resultados, só quem já fez as pazes com a possibilidade do fracasso, só quem não depende da aprovação alheia para se sentir realizado — só esse pode agir com a coragem lúcida de Helvídio Prisco. Só esse pode, diante da tirania, responder com a serenidade de quem sabe que a sua parte é fazer o que é justo, e que o resto pertence aos deuses, ao destino, ou simplesmente ao acaso.

Não se trata, pois, de escolher entre a paz interior e o combate pela justiça. Trata-se de compreender que a primeira é o fundamento do segundo. Sem ela, o nosso ativismo transforma-se em ressentimento, a nossa luta degenera em ódio, a nossa defesa da verdade corrompe-se em dogmatismo. Com ela, podemos enfrentar as injustiças do mundo sem que o mundo nos roube aquilo que mais importa: a integridade da nossa alma.


A Perspectiva Cósmica: A Pequenez dos Nossos Problemas

Há um fenómeno psicológico característico do nosso tempo que merece ser nomeado: o doomscrolling. A palavra, aportuguesada como "rolagem da desgraça", designa o ato de percorrer interminavelmente os feeds de notícias e redes sociais, absorvendo uma corrente contínua de informações negativas, mesmo quando — ou talvez sobretudo quando — elas nos provocam angústia. Quem nunca se surpreendeu, numa insónia provocada pela ansiedade, a deslizar o dedo pelo ecrã, título após título, comentário após comentário, como se procurasse, no fundo desse poço de más notícias, alguma explicação que justificasse tamanho sofrimento?

O doomscrolling é, na sua essência, um afogamento no instante presente. Uma perda completa da perspectiva temporal que nos faz crer que aquilo que estamos a viver agora é não apenas único, mas também definitivo — o momento mais perigoso da história, o colapso final, o apocalipse há tanto anunciado. Cada crise nos parece a mãe de todas as crises; cada conflito, a guerra que vai acabar todas as guerras; cada tensão política, o prenúncio irrevogável do fim da civilização como a conhecemos.

Ora, é precisamente contra esta miopia temporal que os estoicos nos oferecem um antídoto poderoso. Não se trata, note-se, de menosprezar a gravidade dos problemas que enfrentamos. Trata-se, isso sim, de os situar numa escala mais ampla — a escala cósmica, a escala histórica — e de perceber que, vistos dessa distância, eles perdem a aparência de catástrofe absoluta para revelarem a sua verdadeira natureza: a de mais um episódio no interminável ciclo de eventos que constitui a aventura humana.

Marco Aurélio, imperador romano obrigado a passar grande parte da sua vida em campanhas militares nas fronteiras do império, sabia bem o que era viver sob pressão constante. As suas Meditações, escritas em tendas de campanha e nos intervalos das batalhas, são um exercício permanente de alargamento de perspectiva. Uma das suas reflexões mais impressionantes é aquela em que contempla a era do imperador Vespasiano, algumas décadas antes da sua própria. Escreve ele:

"Considera, por exemplo, os tempos de Vespasiano. Verás gente a casar, a criar filhos, a adoecer, a morrer, a guerrear, a dar festas, a negociar, a cultivar a terra, a adular, a ostentar, a suspeitar, a conspirar, a desejar a morte de uns, a queixar-se da sua própria sorte, a apaixonar-se, a acumular riquezas, a ambicionar o consulado, o poder imperial. Pois bem, toda essa vida, há já muito que deixou de existir."

Há uma serenidade melancólica nesta passagem, mas também uma lucidez profundamente libertadora. Marco Aurélio convida-nos a olhar para trás, para aqueles que nos precederam, e a constatar o óbvio: eles fizeram exactamente o mesmo que nós fazemos. Amaram, odiaram, lutaram, desejaram, sofreram, triunfaram. E, no entanto, tudo isso já não existe. As suas paixões, as suas guerras, as suas ambições — tudo foi levado pelo tempo, como a areia levada pela maré.

O mesmo se aplica, naturalmente, a nós. As tensões geopolíticas que hoje nos tiram o sono, os conflitos ideológicos que dividem as nossas famílias, as ameaças existenciais que nos fazem temer pelo futuro — tudo isto passará. Daqui a um século, quem se lembrará destes debates? Daqui a um milénio, que peso terão estas disputas na balança da história? Os nossos netos, se os tivermos, estudarão estes tempos em manuais escolares, com a mesma distância com que nós olhamos para as guerras púnicas ou para a queda do Império Romano. E, tal como nós hoje não perdemos o sono por causa de Cartago, também eles não perderão o sono por nossa causa.

Marco Aurélio vai ainda mais longe noutra passagem, onde afirma algo verdadeiramente radical: "Quem viu o mundo de hoje, viu tudo o que aconteceu desde a eternidade e tudo o que acontecerá pelos séculos infinitos, pois tudo é da mesma natureza e forma." A frase merece ser lida com atenção. O imperador não está a dizer que os acontecimentos se repetem literalmente — não haverá uma segunda Guerra do Peloponeso, nem um novo Império Romano. Está a dizer que a natureza dos acontecimentos é sempre a mesma. As mesmas paixões humanas, os mesmos conflitos, as mesmas ambições, as mesmas loucuras. Os cenários mudam, os nomes mudam, as tecnologias mudam — mas o drama de fundo é sempre o mesmo. E, se é sempre o mesmo, por que razão havíamos de nos deixar consumir pela ansiedade a propósito de mais uma das suas infinitas encenações?

Esta perspectiva não resolve, como é óbvio, os problemas concretos que enfrentamos. Continuamos a ter de lidar com a guerra, com a injustiça, com a polarização, com as ameaças reais à nossa segurança e bem-estar. Mas ela dissolve, ou pelo menos atenua, a angústia que esses problemas nos provocam. Ajuda-nos a perceber que somos parte de um fluxo muito maior, de um rio de tempo que corre desde antes de nascermos e continuará a correr muito depois de partirmos. E, se somos parte desse fluxo, a nossa paz interior não pode depender de eventos que o tempo, inevitavelmente, apagará.

Há, nesta atitude, uma forma de humildade cósmica profundamente saudável. Reconhecemos que não somos o centro do universo, que a nossa época não é a mais importante da história, que os nossos problemas, por muito graves que sejam, não são os únicos nem os derradeiros. Este reconhecimento, longe de nos paralisar, pode libertar-nos para agir com mais serenidade e eficácia. Livres da angústia apocalíptica, podemos concentrar-nos no que realmente depende de nós. Livres da ilusão de que o mundo vai acabar amanhã, podemos trabalhar hoje, com paciência e persistência, para o tornar um pouco melhor.

Os astronautas que contemplam a Terra do espaço relatam frequentemente uma experiência transformadora: ao verem o planeta como um pequeno ponto azul perdido na imensidão negra do cosmos, as fronteiras, os conflitos, as divisões humanas parecem subitamente ridículas na sua pequenez. É o chamado overview effect — o efeito de visão panorâmica. Os estoicos, sem precisarem de sair da atmosfera terrestre, cultivavam deliberadamente esse efeito. Olhavam para os dramas humanos com a distância de quem já compreendeu que, vistos do alto, eles são menos avassaladores do que parecem quando vistos de perto.

Não podemos, naturalmente, viver permanentemente nesta perspectiva cósmica. Temos contas para pagar, relações para cuidar, obrigações para cumprir. Mas podemos visitá-la regularmente, como quem sobe a uma montanha para respirar ar puro e ver a paisagem de outro ângulo. Podemos, nos momentos de maior angústia, fazer a pergunta que Marco Aurélio incessantemente se fazia: isto que me aflige agora, terá alguma importância daqui a cem anos? E, se não terá, porque lhe entrego a minha paz interior?

A resposta, quando a interiorizamos, é profundamente libertadora. Percebemos que a nossa angústia com os eventos globais não é proporcional à sua gravidade objectiva, mas sim à nossa perda de perspectiva. Percebemos que o doomscrolling é uma forma de intoxicar a alma com o veneno do instante. E percebemos, sobretudo, que a serenidade não depende do mundo — depende da distância que conseguimos colocar entre nós e ele.




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